
O rouxinol
O tio Argemiro gostava tanto de lendas, que tudo era pretexto para tirar uma do fundo do baú da memória, nem que fosse inventada – que a memória é assim, uma boceta de Pandora que tudo guarda, tudo inventa, tudo cria.
Eis que numa tarde linda um beija-flor azul, tchibum!, mergulha de repente nas águas limpas de seus olhos.
Não, não era um beija-flor, e não era azul; no remoinho da memória do tio Argemiro, o beija-flor tinha se transformado num rouxinol, com um canto doce como um sonho. Tinha uma cor que era a suma de todas as cores para o tio, um preto retinto, tão preto que brilhava no espelho d’água do pequeno lago do jardim.
– Filomena! – disse o tio Argemiro, encantado.
E não adianta insistir que Filomela era a princesa grega transformada num rouxinol para não ser sacrificada; ele teima, no seu encantamento, repetindo:
– Filomena!
E é como se a sua Filomena ressurgisse das cinzas do tempo nas asas de um pequeno beija-flor, que se transformava num rouxinol, fugindo num voo mágico das entranhas da terra onde estava sepultada há séculos.
A escrava Filomena, que fora uma princesa na sua terra, sacrificada para que não se alastrasse a peste negra da varíola que os brancos trouxeram da Europa, voa nas asas do rouxinol, que os gregos chamaram de Filomela.
– Filomena, o amor alado! – traduz a seu modo o tio Argemiro.























